Dívidas

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Ela deveria ter ido embora quando teve chance. E quando foi isso mesmo? Foi no tempo em que a chance falava mais alto e a vontade chamava. A oportunidade estava lá, mas a ocasião perdeu pro destino.
Ela deveria ter gritado e exposto tudo pra fora bem antes, há muito tempo atrás. Quem sabe agora teria mais respeito e aceitação.
Ela deveria ter sido rebelde e fria, assim agora não teria que se desprender e fazer os outros se arrebatarem de uma imagem torta que desenharam dela.
Ela deveria nunca ter exigido além do que podia de si mesma, assim os outros não exigiriam bem mais do que estabelecem hoje.
Ela deveria ter gritado quando sentiu vontade e chorado sem se preocupar com o que fossem pensar, assim não sentiria tantas dores reflexas disso tudo.
Ela deveria, depois disso tudo, ter ido embora pra sempre quando teve chance, mas agora a chance já não era mais acaso. Era vontade, definhamento, decesso, escuridão, fenecimento, desaparecimento…
Ela deveria ter dito isso pra alguém, mas não teve coragem. Nem de ter ido nem de ter falado.
Ela deveria sim ter falado, mas teve certeza que ninguém entenderia.
Ela deveria não ter devido tanto pra si mesma.
E desse débito todo só restou amor vindo de algum lugar que deve tê-la salvo de todas estas dívidas.

Nenhum título vai servir

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Eu não sou boa com palavras. Nunca fui. Sou um poço de sentimentos e frases piegas. Eu sou emoção, sou abraço, sou desejo e afeto. Quando não gosto não descarto de vez – mesmo não podendo,tenho dó. E “a compaixão mantem a ferida aberta”…
Quando odeio não posso nem sentir o cheiro!
Quando amo, cuido e morro de ciúmes. Ciúmes é ridículo então o reprimo, mas amo, protejo e me entrego.
Quando amo me apego, por que amar é isso, ou talvez não. Disque um se sim, disque dois se não. Você decide.
Então me apego. Me apego e me ferro. Ninguém se apega a você como você se apega a esse alguém. Sim, isso é egoísmo. Sim, isso é realidade.
Já dizia a OLX: “desapega”. Queria saber praticar isso pros sentimentos.
E assim vamos vivendo a falsa sensação de que com o tempo tudo passa, que o tempo tudo cura…
Mas a mente humana não tem noção de tempo e espaço – e é por isso que tudo parece que foi ontem.
E é por isso que tudo AINDA dói.

Hoje

Nó na garganta

Hoje ela acordou diferente: Acordou com um nó na garganta.

E não adianta tentar desfazer um nó preso na garganta. Ele não solta, não desprende. A sensação é, a princípio, de vômito. Depois vem a dor e um nó apertado. Nó que sobe e desce conforme você tenta disfarçar com um sorriso torto dizendo que nada dentro de você está explodindo. E pra que disfarçar um nó na garganta que só quer ser desfeito?

Com ela sempre foi assim. Só que tudo muda. Tudo vai e se esvai, e hoje ela acordou diferente.

Não havia chão, não havia clima, não havia sonhos nem expectativas. Havia sol sem raio,  nuvem sem contorno, flor sem cheiro, folhas fora do galho.

Não havia vontade, não havia força, não havia mais, por perto, suas amizades.

O nó na garganta arranhava preso e intacto, desceu pro estômago e voltou. O nó na garganta era o culpado.

O nó na garganta criou e gerou expectativas que não foram autorizadas. Mas expectativa é assim mesmo, não é? O nó na garganta foi enganado.

Um simples nó de garganta poderia ser resolvido se soltado e exaltado, mas ele estava lá por um erro de percurso já que nós não são feitos, e sim, segmentados. O nó na garganta pediu pra ser camuflado.

A garganta não rompeu o nó apertado que só podia ser afrouxado se desfeito com cuidado. O choro correu solto e isso só piorou o nó estreito e entalado. Pior que nó na garganta, é nó no coração. Ou não?

Não havia mais nada. Só dor e saudade. Voltou pra casa, tomou banho e foi deitar com o nó na garganta.

E não adianta tentar desfazer um nó preso na garganta. Ele não solta, não desprende.

Crucificação

Versos soltos e terapia?
Há! Tá bom! Conta outra…
Alma vazia!
Alma vazia é o que tens!
Alma vazia!
Como pôde ousar
mentir e desafiar
brincar e duvidar
partir e matar?
Tudo isso com um só coração.
Tudo isso com uma só alma.
Olhe no espelho, cresça
amadureça!
O que falta é pregar-te na cruz!
Mas falta uma cruz pra pregar-te.
Eu sei onde posso encontrá-la
e é o que eu vou fazer.
Pregar-te na cruz
alma vazia!
Não é o que desejas
meu Senhor?

Maju Raz

Cacos

E então cai a noite quente (agora fria).
Ela olha lá fora e pensa em você.
A alma (agora) vazia.
Mesmo assim ela olha lá fora e pensa em você.
Procura palavras e rimas pra poder te contar
o que está preso e abafado,
mas não dá.
Está tudo tão machucado
e gangrenado
e reprimido
e proibido
e amordaçado
e aprisionado
e encarcerado
e escravizado.
Há raiva, há dúvidas e até um pouco,
(talvez)
de esperança.
Ela olha mais uma vez lá fora e pensa em você…
Se pega chorando
lacrimeja confusa
Se encontra perdida
se perde em idéias
se prende sofrida
se solta vazia
se procura
se esquece
num vago momento

em silêncio
(e depois da última lágrima cair
antes mesmo do cansaço a vencer)
ela olho lá fora
e pensa só em você.

Maju Raz

Querido Diário…

Querido diário, há quanto tempo não escrevo?
Querido diário, o que aconteceu pra eu te abandonar assim?
“Querido diário, o que há de errado comigo?
Porque eu estou bem entre as linhas
Não tenha medo
A ajuda está à caminho
de uma pena suspensa no ar, longe dali
Querido diário, o que mais poderia ser?
Como erva-moura, como um vel, sob a vela do meu coração
Continue, não pare, até o fim
Querido diário, o que há de errado comigo?
Porque eu estou bem entre as linhas…”