Jornalismo Gonzo…

” Gonzo é um estilo de narrativa em jornalismo, cinematografia ou qualquer outra produção de mídia em que o narrador abandona qualquer pretensão de objetividade e se mistura profundamente com a ação.A narrativa dos textos é literária de vivências e descobertas pessoais em situações extremas ou de transgressão.”

Ou seja, a gente vivenciou moradores de rua, nos vestimos iguais moradores de rua e vimos como é ser um morador de rua, como é pedir, mendigar, andar descalço, passar frio, humilhação etc…e tiramos fotos, filmamos e depois fizemos um texto com narrativa literária que acho legal postar aqui pra algum interessado ler hehehe…

vamos lá!

Título: O Primeiro Gonzo

Tudo bem, a casa é sua!
Por sua janela entra luz do sol e da lua
que ilumina seus amores, alegrias e flores
enquanto isso tem um monte de gente largada, morando na rua…

Maju Raz

Parte I – Habbib´s, Muito Mais por Você

Álefe:

Nossa escolha para essa matéria surgiu há quase dois meses atrás, quando eu e minhas amigas Maju, Rosane e Mariana fomos ao Habib’s matando aula. Enquanto esperávamos nosso pedido sair, um mendigo todo sujo entrou pedindo comida. O segurança que estava na porta pediu que ele esperasse do lado de fora. Nesse momento veio a nossa cabeça a idéia que precisávamos: encarnar um personagem igual a daquele homem para sentirmos na pele o que ele passou naqueles minutos.

Dois meses depois marcamos a data para a nossa encenação. Estávamos criando coragem e estávamos preocupados se eles realmente acreditariam que éramos moradores de rua. Na segunda-feira, 21 de junho, nos encontramos na casa da Maju, onde escolhemos nossas roupas e nos sujamos com carvão, terra e pinga. Eu e a Maju seriamos os moradores de rua, enquanto a Rosane seria uma moça arrumada que estaria comprando na hora em que estivéssemos lá. A parte dela seria ver a situação com outros olhos e aproveitar para questionar aos funcionários de lá sobre esses acontecimentos.

Fomos então para o Habib’s do balão da Portugal no carro da Maju. Ela parou na praça atrás do quarteirão. Eu e a Maju descemos e já entramos nos personagens. Deitei no banco da praça enquanto a Rosane foi andando na frente até o Habib’s.

Álefe deitou no banco da praça

Eu e a Maju fomos andando todos sujos e descalços, olhando para o chão com seriedade. Minha roupa estava toda fedida e rasgada. Chegamos em frente ao Habib’s. Combinei com a Maju pra ele ficar mais atrás que eu pedia a comida.

Enquanto a Rosane fazia o pedido, eu me aproximei do balcão. A mulher que a estava atendendo não tinha me visto até então. Cheguei e pedi com a voz baixa: “Moça, você poderia arranjá alguma coisa pra gente comê?”. Quando ele me olhou, percebi que ficou um pouco desnorteada. Ele disse: “O que?”. Repeti a pergunta e ela olhou tanto pra mim quanto pra Maju. Vi em seu olhos a preocupação. Ela disse que chamaria o Fernando, o gerente. Mas ela estava ali sozinha. De longe chamou alguém para que gritasse o Fernando.

Eu e a Maju ficamos de lado de cabeça baixa. A Rosane terminou de fazer seu pedido e sentou-se em uma das mesas. Consegui entrar no personagem perfeitamente, pois no fundo queria rir, mas consegui segurar muito bem. Enquanto esperávamos fiquei analisando a situação, mas tudo de cabeça baixa.

Um funcionário chegou para ficar com a moça no balcão enquanto o Fernando não vinha. Ficamos esperando por vários minutos. Outros funcionários passaram, mas logo foram pra outro lugar. E depois de um bom tempo, um deles se aproximou entregando uma pequeno saquinho com algumas esfirras dentro. Ele deu na mão da Maju e eu agradeci: “Obrigado, moço. Deus te abençoe”. Nós dois saímos e descemos a rua até a esquina. Sentamos lá para comer.

Ficamos os dois de cabeça baixa comendo as seis esfirras que ganhamos com nossas mãos sujas. As pessoas passavam por nós na calçada e se desviavam. Depois de comermos as esfirras nos levantamos e voltamos para o carro, ainda no personagem. Entramos no carro e voltamos para a casa da Maju. Conversamos sobre a versão de cada um daquele momento, enquanto comíamos as esfirras.

Rosane:

Nem foca eu sou. Estou mais para aprendiz de Jornalista. Estudando no último ano de Jornalismo conhecemos o estilo Gonzo. Tivemos dois meses para preparar este dia, muitas idéias na cabeça.

No começo, todo mundo ansioso. Pensamos em roubar lojas, mas depois seria muito difícil provar que éramos apenas três alunos fazendo um tipo de jornalismo completamente diferente.

Pensamos em cozinhar, e vimos que era muito fácil. Até chegarmos na idéia de moradores de rua. Fechou. Dois meses depois, chega segunda-feira do dia 20 de junho de 2010.

Levantei cedo da casa da minha avó em Paraguaçu Paulista, São Paulo, por que tinha que estar em Ribeirão Preto antes do almoço. Cheguei em casa e minha irmã estava preparando a carne. Fiquei pensando no trabalho que tínhamos que fazer desde o final de semana. Nunca fiz teatro, encarnar personagens não é comigo. Estava nervosa.

Fiquei cinco dias sem lavar o cabelo, hoje era o último dia que eu agüentava ele grudento e oleoso. Peguei minha calça de moletom, meu chinelo Havaianas e fui para a casa da Maju.

Desarrumando o cabelo…

Quando cheguei lá, eles já estavam se aprontando para serem os moradores de rua. O Álefe ficou em dúvida se ia de moletom velho ou de bermuda, optamos pela que tinha mais jeito de se encontrar em uma daquelas caixas de ajuda para abrigo, a calça de moletom velha.

Enquanto ele rasgava sua camiseta, a Maju arrumava o cabelo dela, ou desarrumava. Ela passou gel, óleo para pentear, talco e passou o cabelo na parede branca do muro da casa dela.

CCabelo pronto

Enquanto eles passavam cachaça no corpo inteiro, eu tirava as fotos. Nessa parte, eu ia ser a mocinha que olhava ridicularizada para os dois moradores de rua que iria entrar em um local como o Habbib´s.

Cachaça…

Treinamos um pouco como iria ser na hora, a mesa do computador virou o caixa do Habbib’s e o corredor da casa virou nossa calçada. Vimos que treinar não adiantou muito, então partimos para a prática.As 16h saímos da casa da Maju e estacionamos o carro perto de uma pracinha atrás do MC Donald´s.

Enquanto eu saia do carro da Maju, o Álefe deitava no banco da praça, não tinha ninguém além dos pombos. Subi a rua do Habbib’s bem antes que eles, para ninguém de fora perceber. Percebi que andei rápido demais, finjo que estou ligando para alguém e vejo-os chegando perto de mim.

Entro no Habib’s, passo pela porta principal de vidro e não tem nenhum guardinha por ali. Só eu e a moça do caixa. Percebo que a Maju e o Álefe conseguiram entrar no estabelecimento.

Caixa – Qual seu pedido?

Rosane – Eu quero uma esfiha de frango, um minikibe de qualhada, duas espihas de queijo, um kibe e uma Pepsi grande.

O Álefe fica perto de mim, eu olho com cara de espanto para ele, e depois para a caixa. Saio de perto, seguro minha bolsa.

Caixa – seu pedido ficou em R$10,40.

Não abro minha carteira. Fico olhando para a moça, afinal ela ia deixar aquele tipo de pessoa entrar em um local como o Habib’s.

Morador de rua – Moça, você tem alguma coisa para a gente comer?

Caixa – alguém chama o Fernando? Cadê o Fernando? Felipe, chama o Fernando pra mim.

O Álefe sai de perto da caixa e fica com a Maju esperando. Ainda estou no caixa, abro minha carteira e percebo que a moça esta de olhos arregalados, fica olhando para os outros garçons como se pedisse ajuda, afinal, ela estava sozinha com aquele povo.

Entrego o dinheiro e percebo que ela não olhou para a tela do computador enquanto eu fazia o pedido. Sento longe deles. Espero a minha vez do pedido. Vejo de longe um garçom com um papel de embrulho branco.

Penso “Não acredito, eles vão dar mesmo a esfiha”. Fico de boca aberta, tenho que ficar olhando no meu celular para não mostrar como fiquei espantada, e começo a ter vontade de rir. O garçom entrega o pacote branco para o Álefe, e os dois saem do Habib’s. Continuo esperando meu pedido.

Não aparece a senha no monitor, mas o moço me chama. Ele está segurando o papelzinho do meu pedido.

Entregador – Seu pedido foi uma esfiha de frango, duas de queijo, dois minikibes e um kibe?

Rosane – Isso; Sabe esses moradores de rua quem estavam aqui?

Entregador – hum?

Rosane – Vocês costumam entregar muita comida pra eles?

Entregador – Ah, os meninos costumam fazer isso.

Sinalizo que entendi, pego a caixa e saiu do Habib’s. Subo a rua de encontro com o posto de gasolina. Estou prestes a ligar para a Maju quando o moço do posto me chama. Fico medo. Olho de relance e ele sinaliza que a moça do Habib’s quer falar comigo.

Penso “Será que descobriram?”. Mas a moça só estava lá pra me avisar que tinha esquecido de levar minha Pepsi grande. Volto, o entregador pede desculpas por que não sabia. Pego a Pepsi e vou embora.

Chego no carro da Maju e não encontro eles, sorte que eu estava com a chave do carro. Tento ligar para ela, mas só ouço barulho de carro. Abro a caixa e percebo que o pedido veio errado. Esqueceram de colocar as esfihas do Álefe e veio três minikibes que não eram de qualhada.

Consigo contato com a Maju, que demora para entender que já estava no carro. Vejo eles chegando de longe. Quando chegam perto do carro começamos a rir, de nervoso ou de saber que conseguimos fazer nosso papel, o que importa mesmo é que sabemos agora o que é ser um pouco essas pessoas.

A cara da Maju e do Álefe eram de cansados, olhos tristes para quem ficou apenas uma tarde interpretando alguma coisa que não eram, e mesmo assim conseguiram sentir na pele o que é sentar na rua e ir em desespero a um pouco de comida.

Descubro que as esfihas de queijo foram para eles. Coincidência ou não, o pessoal do Habib’s ficou atordoado. Penso que deveria ter voltado lá para reclamar do pedido, mas deixo quieto.

Afinal, dois moradores de rua conseguiram ganhar seis esfihas. O que não era o que esperávamos, pois, nossa idéia de ir até lá foi por que um dia depois da faculdade, nós estávamos no Habib’s e vimos um morador de rua entrando no estabelecimento.

O guarda da porta de vidro, barrou ele e não deixou entrar, mas falou que ia entregar esfihas. O morador de rua esperou e acabou indo embora, sem as esfihas.

Talvez seja por que eram duas carinhas de adolescente com fome que fez com que os “meninos” fizessem essa caridade. Porém não importa o tipo de pessoa, todos merecem pelo menos seis esfihas.

Maju:

E eis que então surge o tal do “jornalismo gonzo” na nossa grade curricular. Aí estudamos e conhecemos mais a fundo sobre o assunto com o professor Denis e ele passou a grande tarefa de encararmos alguma coisa. Pensamos em várias coisas… Eu sugeri de ficarmos nus numa aldeia indígena ahahaha, mas ninguém quis. Sugeri também de passarmos a noite na rua, mas achamos muito perigoso. Aí tivemos a idéia de fazermos alguma coisa relacionada a moradores de rua.

Primeiro pensamos em pedir dinheiro no semáforo e depois ir tentar comprar uma esfirra de carne no Habib’s que eu achava que ainda tava 49centavos, mas um dia antes de sair pra fazer o jornalismo gonzo, eu estava conversando com minha amiga Ana no MSN pra ver o que ela achava da nossa idéia e ela me disse: ”Mas Majujuba não tá mais esse preço a esfirra de carne,subiu!Acho que tá uns 80 e pouco centavos”.Aí resolvemos ir pedir a comida mesmo, ou seja, se um morador de rua antes podia comprar uma esfirra só com uma moeda (50cents) agora já não pode mais.

Então numa dessas aulas chatas saímos (eu, Álefe, Mariana e Rosane) e fomos até o Habib’s comer esfirras. Quando estávamos acabando de pagar chegou um homem cheirando mal, todo sujo e logo já foi colocado pra fora. O segurança do Habib’s falou: “Espera aí fora que a gente vai te levar alguma coisa”. E o pobre coitado esperou, esperou e desistiu e foi embora. Aí tivemos a idéia: que tal encararmos um personagem igual aquele homem? Um morador de rua. E assim fizemos…

No começo estávamos com vergonha de nos vestirmos daquela forma e como somos “fortinhos” pensamos: “Será que vão acreditar que somos moradores de rua?”

Mas foi! Tomamos coragem e combinamos tudo.

Era uma segunda-feira e eu acordei cedo nesse dia. Estava muito cansada e como íamos ao Habib’s pedir comida eu nem almocei pra tentar ver como é passar fome. Não é uma coisa muito legal não. Você fica irritado e ainda mais com as coisas na sua casa você quer comer, mas a pessoa da rua não tem essa opção então eu pensei “chispa da cozinha Maria Julia”. Claro que o que aconteceu não foi uma “fome” de verdade, eu acho, os moradores de rua passam fome de ficar sem ter o que comer o dia todo às vezes.

O Álefe e a Rô vieram em casa por volta das 15 horas e eu já havia começado a me arrumar. Tinha passado óleo e pomada de cabelo na minha cabeça toda e depois passei gel. Usamos carvão pra pintar as unhas e nos esfregamos na parede pra ficarmos com aspecto de pele seca. Esfregamos nossas roupas do chão pra ficarem sujas e passamos cachaça nas axilas. Veja bem, não tínhamos nenhuma intenção de dizer que todo morador de rua era sujo e mal cheiroso, mas a maioria não freqüenta os albergues e então acabam ficando sujos, e também nós não temos cara de moradores de rua, temos bochechas rosadas, então tínhamos que disfarçar bem.

A Rô toda chique e nós…

Aí fomos até o Habib’s do balão da Portugal. Eu estacionei na praça que fica atrás do quarteirão.  Desci com o Álefe e já entramos nas personagens. Eu estava descalça e quase pisei num caco de vidro. A Rosane foi vestida toda chique na frente, pois esse era o plano: a Rô seria uma moça normal que estaria comprando esfirras e aí a gente aparecia. Ela nos veria com ar de desprezo e questionaria os funcionários de lá sobre pessoas que passam pedindo comida.

Assim que a Rô entrou a gente entrou atrás. Na hora que eu entrei no Habib’s descalça e com aquela roupa toda suja, rasgada e mal cheirosa eu quase tive um treco. As pessoas que estavam comendo ficaram encarando a gente e eu não conseguia olhar nos olhos delas. Eu até ia pedir uma esfirra pra Rosane e nem sequer isso tive coragem. Não tive coragem de pedir pra minha própria amiga porque eu tava com muita vergonha de mim mesma.  O Álefe foi mais corajoso que eu e pediu comida pra moça do caixa: “Moça, você poderia arranjá alguma coisa pra gente comê?”.  Ela olhou espantada pra mim e pro Álefe e perguntou: “O que?”. Ele fez a pergunta de novo e falou que tinha que falar com o gerente. Aí começou a grita: “Fernando! Alguém aí viu o Fernando?”

Ela (a caixa) estava meio desesperada pro gerente ir logo e pra gente sair logo dalí. Ficamos uns 5,6 minutos esperando e aí veio o moço trazer esfirras e entregar na minha mão. Eu dei um sorriso meio seco e agradeci, o Álefe disse: “Obrigado, moço. Deus te abençoe”. Nessa hora eu pensava: “Cara eu não acredito que ganhamos comida”. Saímos da esfirraria olhando para baixo com seriedade e sentamos no chão pra comer. Ganhamos três de queijos e três de frango, nem sei direito eu já catei uma de frango e comi. As pessoas ficavam olhando quando passavam e desviavam da gente. Olhavam como se fossemos ETs. Eu tava me sentindo muito mal. A gente sempre passa por moradores de rua e os observa com seus problemas, seus abandonos.  E depois de ter feito esse trabalho a gente vê que uma grande multidão é dono de absolutamente nada porque a vida lhes tirou tudo. A sociedade também tira tudo deles. Só porque uma pessoa não tem casa, não tem um lugar pra tomar banho ela é vista com olhos arregalados como a caixa do Habib’s fez com a gente…me senti sem dignidade, sem identidade.

Comendo no chão…

Depois de comermos as esfirras voltamos para o carro. A Rô tava esperando a gente lá e aí ela abriu a caixa de esfirras que tinha comprado. Ela tinha comprado um quibe pra ela, dois mini quibes e uma esfirra pra mim e duas esfirras pro Álefe. Mas as esfirras do Álefe não vieram sabe porque? Porque quando a caixa do Habib’s começou a gritar pelo gerente ela gritou também com a moça que confere os pedidos. A moça que confere os pedidos foi e chamou o gerente, e ela também ficou atordoada e querendo que a gente saísse rápido dalí que nem conferiu o pedido da Rô e fez vir errado. E a Rô cabeçuda também não conferiu o pedido né hehehe. Entramos no carro e voltamos para minha casa. Falamos o que cada um tinha achado. No começo deu vontade de rir da nossa situação, de termos esfregado carvão no corpo e usado cachaça pra fazer mau cheiro, mas depois foi triste nos colocarmos naquela situação.

Parte 2 – Ribeirão Shopping, Muito mais Segurança para Você

Álefe:

Em seguida fomos ao Ribeirão Shopping. A Maju e a Rosane insistiram que devíamos tentar entrar lá. Mas dessa vez quis ir arrumado.

Então me limpei e a Rosane se desarrumou. Fomos ao shopping e paramos no estacionamento numa parte vazia. As duas desceram e eu fui estacionar o carro. Eu fui na frente e entrei no shopping pela parte nova, no estacionamento VIP. As duas entraram logo atrás. Até então ninguém as tinha barrado, mas como fui na frente, percebi que alguns seguranças já ficara de olho nas duas. Fiquei numa loja disfarçando enquanto observava as duas. Uma segurança mulher rondou as duas, mas não chegou à abordá-las. Depois de um tempo resolvemos sair e fomos embora.

Essa experiência foi muito boa pra mim. Tive a oportunidade de ver essas situações com outros olhos. Com os olhos dos rejeitados. Pude ver o espanto e a dó na cara das pessoas. Senti na pele a dificuldade e o preconceito enquanto estava naquele personagem. Pude sentir o lado dos desfavorecidos e humilhados que vivem pelas ruas da cidade. Algo que passarei a ver com outros olhos.

Rosane:

Chegamos na casa da Maju, o Álefe correu para o banheiro se limpar, e eu corri para me trocar. Nosso Jornalismo Gonzo não parava por ai. Tínhamos ainda que sentir como é entrar mal arrumado no shopping mais chique de Ribeirão Preto.

Antes do Álefe se arrumar nós três tiramos foto. A Rô tinha se transformado

O Álefe agora iria ser o mocinho que ia mostrar para o guarda que não queria aquele tipo de gente ali. Eu iria ser junto com a Maju duas meninas que queriam passear no shopping mesmo morando em lugar que não tem 14 quartos e 10 suítes.

Ficamos mais tempo do que pensamos na casa da Maju. Sentamos, comemos as esfihas, tomamos a Pepsi, quando a Maju fala: – No final da um pouco de pena do pessoal, eles foram acreditando que nós éramos mesmo moradores de rua.

Não é bem assim. Nosso papel não foi de enganar ninguém, e sim de tentar mostrar um pouco para essa sociedade o que é sentir na pele ser desprezado. Conversamos a respeito e estávamos “amarelando” para ir ao shopping, afinal, somos alunos do COC, mesquinhos, metidos e com grana.

Mas mantive a palavra e consegui convencer os outros dois de que eu também queria sentir como era aquilo que eles sentiram. Não queria ir embora sem antes saber o que é Gonzo.

Tirei minha calça jeans e coloquei um moletom velho do meu namorado, tirei o sinto da minha blusa e ela cresceu do tamanho M para Extra GG. Guardei meu sapato preto de salto alto e coloquei o chinelo branco encardido. Tirei o rabo de cavalo e coloquei a mostra meu cabelo sem lavar uma semana.

Estávamos prontos. Entramos no carro e a direção era o Ribeirão Shopping, comprado pelo Morumbi Shopping de São Paulo. Decidimos por entrar na ala chique do Ribeirão, onde o estacionamento é cinco reais a hora e é um desfile de “Ferraris” e “Porches”.

O Álefe deixou a gente longe da entrada, seguimos a pé até a escada rolante enquanto ele estacionava o carro. Atravessamos a rua e o guardinha ficou olhando. Pensei que ser barrada ali seria uma boa, comecei a ficar muito nervosa.

Todo mundo que passava olhava de cara feia. Estava me sentindo péssima. E descobri que o que estava sentido era a exclusão da sociedade, e que isso era muito ruim. Entramos no estacionamento e tinha seis guardinhas lá na frente conversando. Desejei outra vez que fossemos barradas, se lá fora já estava me sentindo mal, lá dentro ia ser pior.

A Maju estava aparentando estar mais calma. Enquanto eu falava que não queria mais fazer aquilo, ela que seguia em frente. Minhas pernas foi imitando. Chegamos na porta. Paramos. Percebemos que não vamos ser barradas por ninguém. A hora era aquela. Entramos. O guarda do segundo olhar detectou a gente e ligou seu “walk talk”. Estava falando com alguém.

A Maju me chama para subir. Fiquei louca. Ali era a “FNAC”. Mas fui. Queria encarar as pessoas para ver o comportamento delas, mas consegui poucas vezes, olhar o chão era mais fácil.

E percebi que os moradores de rua nunca olham para gente. Enfrentar o chão com feições duras era mais fácil do que enfrentar a cara de desprezo de alguém. Chegamos no andar de cima. Outra guardinha se juntou ao primeiro guarda.

Começamos a rondar o shopping naquela parte. Passamos pelos dois guardas. Um foi pela direita, o outro pela esquerda. Tudo muito discreto, se não estivesse preocupada em olhar para eles, seria difícil perceber seus movimentos. As pessoas não perceberam.

O Álefe entrou na “FNAC”, eu e a Maju paramos para visualizar mais uma tecnologia nova de futebol que estava sendo exposta fora da “FNAC”. A guarda ficou perto da Maju, parada, e o outro guarda ficou do meu lado.

A Maju não estava percebendo que a mulher estava do lado dela, e a Maju conversando comigo e eu nervosa por que estava vendo que estávamos sendo seguradas, não literalmente, mas psicologicamente.

Descemos a escada e voltamos ao térreo. Damos mais uma volta, pegamos o papel do cinema e a Maju me chamou para ir do lado do guarda. Eu continuei do lado direito. Estava recebendo muito olhares, e isso é péssimo.

Queria ir embora dali, talvez seja por isso que pobre não vai naquele shopping, o desejo de ir embora é aceso assim que você põe os pés dentro do shopping.

A Maju fala alguma coisa comigo, mas fico tão nervosa que nem escuto. Algo como o segurança quase barrou ela. Sigo em frente. Quando saiu do shopping o alivio de voltar as ruas é enorme.

Um peso sai de dentro de mim, fora eu não sofro tanta exclusão social como lá dentro. Seguimos para o carro. O Álefe já está lá dentro. Sento no banco do passageiro e me sinto exausta. Voltamos para a casa da Maju.

No final, ganhamos as esfirras e não somos barradas no shopping. Mas a sensação é de que pedir algo para alguém é horrível, e sentir a exclusão social que essas pessoas sentem todos os dias é como ser muito melhor você ser barrada na hora de entrar.

Maju:

Bom depois de toda essa experiência a gente resolveu ir ao shopping vestidos de moradores de rua. Pensei em ir ao “Novo Shopping”, mas aí o Álefe falou que a gente entrava de boa lá e a Rô falou que já viu crianças pedindo comida na praça de alimentação. Aí só nos restou o “Ribeirão Shopping” que é o Shopping mais requintado.

Dessa vez o Álefe quis ser o mocinho que despreza e foi arrumado. Então a Rô se desarrumou. Chegamos ao shopping e paramos no estacionamento numa parte vazia. Nós duas descemos do carro e o Álefe foi estacionar. Paramos bem  perto da parte VIP e fomos caminhando pra entrada do Shopping. O Álefe passou por nós fingindo falar ao celular e nos ignorou. Achamos que ia ter um daqueles seguranças gigantes na entrada do shopping e que íamos ser barradas, mas não. A gente conseguiu entrar! Entramos e a Rô começou a surtar: “Ah meu Deus! Maju vâmo embora agora!” E eu falei que não, falei pra ela ter calma e começamos a andar na parte térrea. O Álefe subiu em direção da loja FNAC e resolvi catar a Rô e subir também.

Nesse momento o segurança que tava lá em cima ficou olhando a gente subir pelas escadas rolantes e começou a falar alguma coisa no rádio dele. A gente chegou na parte de cima e começou a ir em direção ao “Musse Cake” e de repente  vejo uma segurança mulher se aproximando. A gente desviou e ficou conversando, como se estivéssemos combinando algo. Aí a gente andou mais um pouco e parou em frente a FNAC pra ver uma TV interativa que tinha lá. De repente eu senti um calor do meu lado e quando vi a segurança estava muito perto de mim e da Rô e do outro lado estava o outro segurança cercando a gente.

Resolvemos descer, na verdade a Rô tava muito incomodada e resolveu descer, mas eu acho que se ficássemos mais um ou dois minutos os seguranças iam falar alguma coisa.

Aí descemos e fomos até o cinema. Todo mundo passava olhando com a pior cara do mundo pra gente, e a gente tava muito incomodada, a Rô tava bem mais. A gente tava com preconceito da gente mesma. Será que os moradores de rua tem preconceito deles mesmos? Depois disso resolvemos sair e fomos embora.

Foram duas experiências em locais diferentes, mas com reações iguais. A sociedade passa pelos mau vestidos e prestam atenção só na carcaça, isso quando prestam atenção. Muito raramente passam e olham em seus olhos, imaginam suas dores e dramas. Às vezes estendem a mão pra um morador de rua com algumas moedas ou com algum alimento, na intenção de fazer o bem e mais ainda pra aliviar um sentimento de culpa do subconsciente. Isso eu falo por mim mesma. Pedimos comida e recebemos comida, mas às vezes eu dou comida e algumas moedas pra tentar fazer alguém feliz mas também pra tentar tirar o peso de ser mais uma daquelas que às vezes esquece das pessoas duplamente esquecidas. Uma vez pela sociedade, e outra esquecidos por eles mesmos, pois muitos já não se lembram mais do seu  próprio interior.

No fim ganhamos alimento e não somos barradas no shopping como achamos que íamos ser. A percepção de pedir algo para alguém é arrepiante, e sentir a exclusão social na veia. Vimos que a fome machuca, mas que pedir machuca muito mais. Que a indiferença maltrata e o abandono isola. Aí o vazio aumenta na alma de quem se sente sozinho na multidão. E muitos os chamam de vagabundos e marginais. Mas a maioria deles não tem culpa.

Ninguém quer lutar pela causa que joga na sarjeta os deserdados do destino enquanto a fortuna do país vai para os bolsos de uma minoria por causa da preguiça da justiça que não quer acabar com a corrupção. Ninguém quer lutar, todos somos preguiçosos…

E seguem vivendo pessoas nas ruas. Moradores de ruas? A rua virou morada e os moradores prisioneiros da ambição de uns e da cumplicidade de outros.

Deserdados do destino

E ele nunca mais dormiu na cama

e não tem comida quente.

O leite que bebe é azedo

o dia dá fome

a noite o frio arrepia

o escuro dá medo.

Já não tem memórias

nem sequer rumo.

Não quer as coisas do mundo.

Quer ser alguém

e se igualar aos que tem que ser.

Quer paz

quer dignidade,

conversas e amizade.

Quer o sorriso!

Da luz quer a alma

do amor aprender a doar e ganhar

e dessa vida só queria ter alegria

e qualquer um lugar para morar…

Maju Raz

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3 comentários sobre “Jornalismo Gonzo…

  1. Sempre que vejo moradores de rua morro de pena, fico pensando o que aconteceu para aquela pessoa estar naquela situação tão triste.
    Bem, deve ter sido uma experiência fantástica para vocês.
    Parabéns pelo trabalho.
    Beijos

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