Nada a ver…

Foto: Maju Raz

E eu estava encarando o computador e pensando que provavelmente eu reprove esse ano…

Não sei o que está acontecendo! No primeiro ano eu tinha DOZE matérias e agora eu tenho oito e não tô dando conta.

Pensei: Minha mãe me mata. Aí pensei na morte. Aí eu liguei a T.V. e tava passando um filme de tiros de estilo Juliana e vi vááários tiozões morrendo…

Aí pensei num cara morrendo e escrevi isso que não tem naaada a ver, mas mano! Eu tô danada, perdida e posso reprovar de ano! Minha cabeça tá nada a ver…

Foi assim: morri numa noite quente. Estava tomando banho quando ela chegou para tirar minha vida. Entrou sorrateiramente no banheiro, quebrou meu espelho e rapidamente atacou-me com um caco. Tentei defender-me e o caco foi certamente embaixo de minha unha, descolando-a. A dor era terrível! Como se uma agulha penetrasse e ali ficasse eternamente. Em seguida a mira foi certeira e ela rasgou um de meus pulsos. Minha mão estava tomada de sangue já que não havia usado proteções para pegar nos cacos. A cada batida de coração uma jorrada de sangue, a cada jorrada o som estridente da morte que se aproximava e dizia refletindo no espelho: “O Reflexo de tua alma eu sempre serei”.

 Tudo o que de mim sobrou está naquele mórbido sepulcro em mármore, meu corpo jaz apodrecido e cheio de vermes, a sete palmos da terra. Os vermes me perfuram e torturam, assim como na vida fiz com os outros. Perversidade, apatia, tentação, luxúria, e pacto com o Cramulhão que me traiu e não me perdoou na minha morte. No fim já não sinto mais nada! Minha alma é impura e foi pra sempre marcada…

O aposento era escuro. Muito escuro, as janelas daquele quarto viviam sempre fechadas e toda a energia negativa ficava circulando ali dentro. As paredes eram forradas de folhas recortadas de revistas antigas e um calendário de dois anos atrás. O ar ali era quase escasso e as coisas cheiravam à naftalina. Perto da cama havia um violão que nunca fora tocado, permanecia sempre em silêncio assim como o dono. Ele até que tentou aprender a tocar, mas desistiu diante das pequenas dificuldades, assim como fazia com todas as coisas da vida.

Próximo à cama havia uma escrivaninha com um computador empoeirado e um espelho trincado na parede em que ele se olhava todos os dias e via-se sempre assim, repartido ao meio. Era como sempre se sentia, trincado, magoado, quebrado, esquecido.

Ele estava perdido, não sabia mais quem era, não gostava mais do que fazia, não sabia o quer queria ser, e ultimamente andava sentindo muitos calafrios e medo.

E eu continuava terrível, quando faço minha escolha ninguém consegue me convencer do contrário. E então eu fui até a casa do infeliz mais uma vez. Mal o tonto sabia o quanto eu adorava aquela escuridão que ele deixava em seu quarto. Quando ele não estava em casa eu aproveitava, comia da sua comida, via sua T.V., tomava da sua cerveja.

Bem que ele chegava em casa e ficava confuso, “mas eu não bebi essa cerveja…”. Eu o deixava cada vez mais e mais maluco. Quando o sol se punha eu visitava sua cama e o fazia passar frio e ter dores de cabeça terríveis. Ele tomava quatro analgésicos e a dor não passava, ia ao médico e  nada.

Então foi na noite de seu aniversário que ele me desejou, como uma criança deseja o doce, ele me desejou várias e várias vezes. Tentou-me, me seduziu, mas eu resisti e mostrei a ele o outro lado da moeda…

Maaaaas de uma pra outra ele finalmente estava feliz, havia encontrado um amor e uma saída para seus problemas, mas já era tarde demais, ele que havia me desejado tanto! E eu cheguei assim, de mansinho, na madrugada. Ele se levantou para ir até o banheiro e eu derrubei seu espelho trincado que espatifou em mil cacos e ele então escorregou e cortou o pescoço, os dedos e um olho. Um arrepio desceu e subiu por sua coluna e ele teve um flashback, depois agonizou. O quarto agora cheira à naftalina com ferro e aos poucos era tingido de vermelho Almodóvar.

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